Só uma coisa supera a incapacidade de articulação do governo: sua capacidade de auto-desgaste. A vítima da vez foi ninguém menos que Sérgio Moro. Em entrevista à Rádio Bandeirantes, o presidente declarou que tem o “compromisso” de indicar seu atual ministro da Justiça e Segurança Pública a uma vaga no STF: “Eu fiz um compromisso com ele, porque ele abriu mão de 22 anos de magistratura. Eu falei: a primeira vaga que tiver lá, vai estar à sua disposição”. O que era uma tentativa de afago virou, aos olhos de muitos, uma confissão de negociata.

Com a declaração de Bolsonaro, a nomeação de Moro para o ministério passou a ser vista como condição de uma nomeação ao STF. Além disso, o presidente antecipou um debate que aconteceria no fim de 2020, com a aposentadoria de Celso de Mello. Só a partir daí é que poderia ocorrer uma nova indicação para Corte.

Marco Aurélio Mello, um dos mais antigos componentes do STF, reagiu afirmando que “é ruim para o candidato , para a Presidência da República, e para a instituição Supremo, porque parece que os cargos que lá existem são destinados a um troca-troca”. 

Na prática, ao mencionar o compromisso de indicar Moro ao Supremo, Bolsonaro lhe colou um alvo na testa. O estrago foi tamanho que o próprio ministro teve de vir a público se explicar. Em palestra realizada em Curitiba, o ex-juiz tentou remendar a situação: “Nós conversamos e nós, mais uma vez publicamente, eu não estabeleci nenhuma condição. Não vou receber convite para ser ministro e estabelecer condições sobre circunstâncias do futuro que não se pode controlar”.

 

O episódio enfraqueceu o titular da Justiça, desprestigiou a pasta que ele ocupa e, após a fala de Moro, gerou uma contradição entre o titular do Executivo e um de seus principais auxiliares. Afinal, Bolsonaro disse que há o compromisso de indicar Moro para o STF. Por sua vez, Moro nega qualquer condição para tanto. Quem está mentindo?

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil