Uma dos maiores argumentos em favor da Reforma da Previdência proposta pelo governo é que ela acabaria com privilégios, equalizando distorções do atual modelo em vigência. Mas isso caiu por terra. Pelo menos desde o início da votação dos destaques que alteram o texto base do projeto aprovado na última quarta-feira. Mal nasceu, a tal “Nova Previdência” já ficou velha, adulterada que foi pelo poderoso lobby exercido por setores do funcionalismo que atuam dentro do Congresso Nacional. Velhos privilégios foram vencidos, mas novos foram criados para agradar certas categorias profissionais influentes entre os parlamentares.

O mais extraordinário é que a corrida por benefícios específicos nasceu quando Jair Bolsonaro se sentiu compelido a atenuar os efeitos da reforma para profissionais da segurança pública. Após ser chamado de “traidor” por sindicalistas ligados à polícia, o presidente saiu a disparar telefonemas e apelar para que deputados alterassem o relatório que estava sendo discutido na Comissão Especial. Ainda que, naquele momento, o texto não tenha sido modificado, a ação sinalizou para que outros grupos buscassem modificações atenuadoras.

Inúmeras propostas modificativas foram apresentadas por partidos de diferentes orientações ideológicas. Além dos integrantes da segurança pública, também foram beneficiados os professores, além se estabelecerem regramentos mais brandos para obtenção de pensão por morte, redução na contribuição do tempo mínimo para homens e mulheres. Outros destaques continuam sendo analisados, alguns deles com impactos de até R$ 200 bilhões na economia pretendida.

E os demais profissionais que não tem força política dentro do Congresso para conseguir um destaque em seu favor? Como ficam faxineiros, pedreiros, motoristas e caminhoneiros que terão de pagar pelas regras mais brandas que foram concedidas a integrantes da Polícia Federal? Eis aí a distorção brutal daa ideia de igualdade de condições que havia se estabelecido quando a proposta original, saída do Ministério da Economia, foi apresenta ao Brasil.

De suavização em suavização, aquilo que poderia ser uma grande modificação na estrutura previdenciária vai se transformando em um arremedo de reforma, distorcida pela corporativismo que infelizmente intoxica e atrasa o país. E aqui não importa nem mesmo o impacto financeiro de cada modificação, mas a cultura de privilégios que possibilita a reiteração dessas práticas.

Foto: Agência Câmara dos Deputados