Moisés Machado

Foto: Giovanna Kops / RDCTV

A HISTÓRIA DE JOANA DE TAL COM UM TAL JOÃO

Ele, feito por Deus um cara fraco, desdentado e feio. Pele e osso simplesmente, quase sem recheio. E, a morena? A cabrocha mais bonita do morro, mas apenas mais uma mulata triste que errou, na dose, no amor, errou de João.

Um dia chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar, olhou-a de um jeito muito mais quente que costumava olhar, embora todo o açúcar e afeto que recebera.

E ele, com aquela cara de marido a lhe aborrecer, se banhara e saía com seu melhor terno, comemorar em um bar em cada esquina, sei lá o quê.  Ia mal, mal demais, de lascar, de doer. Ela desatinou. Cansada de esperar, se foi, levando seu sorriso, seu assunto, seu retrato, seus trapos, seu prato e até aquele velho vinil, de capa carcomida do Noel. E naquele miserê, nada mais havia pra levar.

Desde então, ele não a tirava da cabeça, até mesmo mudo ficou, o seu violão. No entanto, ele nada fazia por a merecer. Por fim, andavam distantes do calor daquele gingado, já não se confundiam suas pernas e já não sabia ele com que pernas devia seguir.

Tentou contra a existência, no humilde barracão, ao ver da rua pela vidraça que hoje ela só dá chá dançante onde não era ele convidado. Medicado, retirou-se a seu lar, um lar que não existe mais – e ninguém volta ao que acabou.

Tinha cá pra si que até que enfim tinha um grande amor. Mas, foi até o fim um amador. Hoje tem apenas uma pedra no seu peito. Chega a mudar de calçada quando aparece uma flor e dá risada desse tal de amor. Mentira!

Todas as noites nos piores cabarés, vive épicos amores. Mas, falta aquele beijo com boca de hortelã.

E a morena, lembra com saudade e também atravessa a rua quando cruza um malandro.

Ele a procurou, o malandro na praça outra vez, e pediu:

– Volta, quis morrer de ciúmes, quase enlouqueci!

Ela, com aquela cara de quem fez samba e amor até mais tarde, sorriu e disse:

– Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa. E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d’água. Vá ser infeliz e passar bem.

Mas, ali não era o fim. Várias madrugadas cantarolando cada um por cada rua: “a sua lembrança me dói tanto, eu canto pra ver se espanto esse mal.”

Doía, uma dor doída no peito de cada um, mas a dor da gente não é notícia no jornal.

Por estas estranhas loucuras do cruel destino, cruzaram-se novamente. Ele farrapo, maltrapilho. Ela ainda mais bela do que antes. Quem não a conhecia não pode mais ver pra crer, quem jamais a esqueceu não poderia reconhecer. Ele reconheceu, ou melhor, reconheceram-se, na retina de cada olho.

“Quem te viu, quem te vê”, pensaram os dois.

João pensou de quando lhe beijava a boca e tinha ela a pele toda arrepiada. Até sentir-se a alma beijada. De quando ria do seu umbigo e lhe cravava os dentes. Pensou em falar, mas não violou os seus ouvidos.

Fingiram não se conhecer.

Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz e atrás dessa mulher mil homens sempre tão gentis. Mentira! Mas, havia pelo menos um, já que, naquele momento, surgiu atrás da gôndola de vinhos um sujeito gordo, bigode grisalho, cabelo branco e seboso, que a segurou pela cintura perguntando: – Que tal um syrah?

Mesmo trêmula e com cara de choro, no silêncio de mil palavras o encarou. Disse tudo apenas com o calor das retinas: “Olhos nos olhos, quero ver o que você diz. Quero ver como suporta me ver tão feliz.” Mentira!

João gira sobre os calcanhares e com pressa busca o caixa mais próximo. Ao sair, olhou pra trás e pensou: “Apesar de você. Amanhã há de ser outro dia”.

O tal João morreria naquela noite, na contramão atrapalhando o tráfego.

Ela, meses mais tarde, pensou em deixar um bilhete, mas não fazia sentido deixar um bilhete para um defunto. Em seu último suspiro, apenas pensou:

“Ex- amor, só queria que tu soubesses, o quanto que eu sofri, ao ter que me afastar de ti”.

E carminou a pedra fria do quarto de banho.

 

*Livremente inspirado na obra de Chico Buarque de Holanda e ao fim uma pitada de inspiração em Martinho da Vila.