Ilustração: Caroline Musskopf

 

Moisés Machado

Foto: Giovanna Kops / RDCTV

AUTÓPSIA DE UM CONTO

Queria escrever um conto, uma crônica, um poemeto que fosse, mas a inspiração não vinha. Não apenas queria, como precisava. O editor estava ali a cobrar a coluna da semana.

Pensou em escrever sobre um casal formado por um patife e uma promíscua qualquer que se conhecem do nada, trepam e da mesma forma repentina que se conhecem passam ao nunca mais. Refletiu. Seus contos sempre envolviam um casal de canalhas que de forma comum terminam entre sussurros, gemidos e unhas na pele. Pensou em matar um ou os dois no final.

Revirando os guardados, leu dois ou três e estes eram uma tragédia suburbana anunciada. Ainda poderia falar de um desses pobres diabos, que precisam voluntariamente morrer de amor pelo simples prazer da sadomasoquia da afeição. Por fim, desistiu. Levantou-se da puída cadeira de trabalho, respirou fundo, acendeu um cigarro e tentou alinhar os pensamentos.

Arriscar-se-ia, talvez a escrever um poema para falar das suas manhãs de domingo, algo como:

Domingos

Execrava domingos.

Desprezível;

Ordinário;

Desagradável;

Desnecessário.

Infindáveis manhãs dormindo;

Assim sobrevivia a almoços eremíticos.

À tarde brindava seu exílio.

Em um sábado, cedo repousou.

Acordou cedo,

suicidou-se. 

Declinou, deletou o poema, bebericou o whisky. Pensou que poderia escrever algo sobre a velhice contemporânea. Falar de uma velhinha que na juventude conheceu um. Outro. Mais um. Mais outro. E, assim, sucessivamente. Ao longo da vida colecionou amores vazios. Uma noite em cada cama, até que a cama que lhe restou foi da ala oeste do asilo municipal. Esquecera que envelheceria como todos. Quis ter filhos, não teve. Também, claro, não houveram os netos sonhados na juventude. Os pais, de quem nunca ouvira um não, morreram. As mãos dadas na velhice foram apenas das enfermeiras a aplicar-lhe o soro. E, assim, morreu, numa noite de inverno. Fria como sempre, tenra como há muito e roxa como nunca.

Recordou que canalhas também envelhecem e seria esta apenas mais uma de suas ordinárias personagens, que por mais que sejam a vida como ela é, seria apenas uma cafajestagem enrugada.

Levanta-se e pensa sobre o que escreveu, aproxima-se da janela, outro gole no whisky, outro cigarro, avistou um casal amigavelmente conversando no prédio em frente, o olhar cínico, ordinário e invasivo penetrou pela janela alheia e pôs-se a observar:

Ele, de cuecas samba canção, regata, afundado em uma poltrona como um imperador romano em seu trono, fuma um cigarro, alguns goles de café e corre o dedo na tela do celular lendo as notícias do dia.

Ela, vestindo apenas um delicado short doll, olha-se no espelho. Encolhe o abdômen, vira de lado, de frente, do outro lado, de costas, de ponta cabeça, com um pé na orelha, volta a uma pose humana, olha por cima do ombro. E diz:

– Jojô, você acha que eu engordei?

Aquele som da voz interrogativa cai nos tímpanos de forma estridente, o olhar perdido no espaço parecem indicar um terremoto, um desses furacões com nomes femininos ou a bomba que devastou Hiroshima. É o camisa 10 da pátria de chuteiras, batendo um pênalti no Maracanã lotado aos 121 minutos de jogo da final da Copa do Mundo. Ele se afoga com o café, queima-se com o cigarro, espatifa a poltrona e cai ao chão.

De repente, começa a virar os olhos, como uma versão barbuda de Regan MacNeil, ele se retorce todo como um plástico sendo incendiado. Uma espuma branca e espessa começa a sair de sua boca, a língua começa a virar e a vida parece esvair-se, a alma vai seguindo a luz branca ao fim do túnel negro.

Ambulância, paramédicos, vizinhos curiosos cercam o prédio que imediatamente é isolado pelo corpo de bombeiro com fitas jalde negras. Selma, a ex-síndica fofoqueira e viciada em máquinas caça níquel comenta com o atendente da padaria ao lado do arranha céu: “conheço esse rapaz desde menino, é esquizofrênico, batata que teve outra crise”.

O porteiro do prédio diz aos atendentes da Samu que ele já foi dado como morto pelos médicos pelo menos duas vezes. O pároco reza um pai nosso e ao final comenta: “pobre Jorge, era um bom homem. Que triste fim, morrer assim tão jovem”.

O pânico e a consternação são gerais.

A ambulância sai em disparada, mas o trânsito é caótico, um helicóptero do serviço de saúde resgata Jorge em meio ao congestionamento da avenida da megalópole, qualquer minuto é inestimável para salvar sua vida. A imprensa já está a postos na porta do hospital querendo saber sobre o caso.

No hospital, medicado, dr. Francisco César pede para falar a sós com Jorge.

-Meu caro Jorge, tenho mais de 40 anos de medicina. Nunca vi caso semelhante, você não tem absolutamente nada. Seus exames preliminares apontam uma saúde perfeita. Ao contrário desse cenário de balbúrdia desta porta pra fora.

-Sim, eu sei doutor.

-Sabe? Como você sabe?

-Sim, sei. Nunca tive problema algum. Minha saúde é de um touro.

– Bom, isso eu sei, eu mesmo o examinei, fiz os exames. Sei que você nunca esteve melhor, apesar desse coque samurai e da sua ficha constar coach como profissão. Mas em relação a esse misancene eu não estou entendendo nada.

– Melhor coque samurai que essa sua mente brilhante. Mas isso também não vem ao caso. Doutor, o senhor é casado?

-Sim, sou. Mas no que isso vem ao caso?

-Doutor, eu estava tomando meu café bem sossegado e lendo as notícias. De repente a Marina, minha esposa, pergunta…

-Onde estava ontem à tarde?

-Não.

-Por que não atendeu o telefone às 4 da tarde do dia 08 de abril de 2011?

-Não!

– Quem era Cátia?

– Não, mas quem é Cátia?

– É minha… bem, não interessa. Continue!

– Bem, ela perguntou se estava gorda.

-Ah sim, essa é clássica.

-Então, se eu digo que sim e que comer pizza três vezes por semana não era jogo e que devia maneirar no chocolate ela tentaria provavelmente me castrar com os dentes. Se digo que não, ela me chamaria de mentiroso, canalha, cretino e esses adjetivos que só podem ser ensinados em escolas secretas de shopping’s, cabeleireiros e aqueles bares que ela frequenta na quarta com as amigas quando vou jogar bola, além de claro arremessar tudo que houvesse na penteadeira na minha cabeça. Provavelmente aquela réplica de metal do Davi de Michelângelo que adorna o criado mudo teria rachado minha cabeça. Aí sim, eu estaria moribundo, ou já morto. Então, a solução que achei foi essa, doutor, fingir que estava tendo um ataque.

-Entendo. Mulheres são assim, brigam se você mente, brigam mais ainda se você fala a verdade. Menos a Cátia, sabe que a Cátia é muito prafrentex. Mas enfim, não estamos falando da Cátia, mulheres são assim meu filho, independente de qual seja sua resposta, você estará sempre errado.

-Doutor?

-Sim.

-O senhor pode dizer a Marina..

– A gorda?

– A minha esposa.

– Ah! Sim.

– Diga que eu fui contaminado por um vírus de nome estranho trazido pelos pombos do Turcomenistão e que eu não posso sofrer fortes emoções?

– Claro. Xavascal está bom para você ?

– Puta que pariu, ainda bem que o senhor fez medicina. Não, xavascal é um péssimo nome. Entende? Além de meio dúbio, porque lembra xavasca, não tem apelo, não vende. Ela não acreditaria. É isso, H13N2, esses nomes que parecem tirados de tabelas periódica são bons nomes, ela não contestaria, não entenderia e tem apelo, vende bem. Se ela questionar diga que é uma variação da gripe turcomena. Aliás, convoque uma coletiva de imprensa, doutor e diga que está averiguando meu caso. Essa imprensinha marrom que não checa nada vai certamente acreditar. Fake News são a bola da vez.

-Ok, certo.

-Doutor, uma última coisa.

-Sim?

-Troque as pombas turcomenas, por mosquitos turcomenos ou então do Tadjiquistão. Ela vai querer saber onde eu tive contato com pombas do Turcomenistão. Mosquitos é mais fácil de explicar. Aproveite e diga que esses mosquitos são contagiados ao terem contato com a água do rio Murgab, contaminado por receber os dejetos de babuínos nômades que se alimentam de uma erva ainda desconhecida. Antes olhe no Google se há babuínos nessa região, se não houver, troque Turcomenistão por Camboja, há babuínos lá.

-Ok.

-Ah e troque também o nome do rio, ou tire o rio. Obrigado, doutor.

-Imagina, eu também sou casado.

Por fim, desistiu de escrever, mandou o editor a merda, acendeu um cigarro, rodopiou sobre os calcanhares, vestiu um casaco surrado e foi a rua. Encheu a cara de cachaça barata nos piores botecos, entrou nos mais imprudentes puteiros, apaixonou-se por uma puta qualquer surgida do nada entre a nébula dos cigarros e aos goles de whisky amanheceu abraçado a uma gorda bigoduda e com uma de suas piores ressacas.