Moisés Machado

Foto: Giovanna Kops / RDCTV

CAMISA 10 

Está valendo! Rola a bola, abrem-se as cortinas e começa o espetáculo.

Estádio abarrotado de milhares de aficionados pelo popular esporte bretão. Bandeiras e bandeirolas, caras pintadas, cânticos de louvores aos deuses da bola. Garboso, o camisa 10 sai tocando curto, pomposo, um lorde dentro de campo. Corre e recebe de volta, com a elegância de um Zidane, o gingado de um Garrincha e toda a magia do bruxo Ronaldinho Gaúcho, ele lança Neymar que passa para Cristiano Ronaldo, que busca com o olhar Isaque, o camisa 10.
O craque recebe, domina, gira, finta um, passa pelo segundo, mete no fundo e corre para área. Messi cruza, ele mata no peito, joga no meio da caneta do zagueiro, no encontro mágico da bola com o pé sagrado de cavadinha joga por cobertura, é gol. Gooooooooool! É dele, o craque, o camisa 10, estádio entra em euforia, milhares de súditos aos pés do rei da bola, amado, reverenciado, idolatrado. Isaque é o nome da fera, é o nome do gol, o nome da magia, o nome da emoção.

Isaque é o nome do morador de rua que em um sábado à tarde arde em febre nos degraus do paço municipal. Nasceu Isaque, pela cor virou Nego. Nego Isaque por alguns instantes volta a si e vê que o gol, o estádio lotado, a reverência nada mais são que devaneios de seu estado febril, de uma doença que assim como pode ser um resfriado, também pode ser câncer ou tuberculose. Sequer lembra a última vez que foi ao médico.
O gramado verde e bem aparado não existe, mas existe a dura escadaria da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Em outras vezes o viaduto Otávio Rocha, a Praça da Alfandega. Nunca o Camp Nou, o Santiago Bernabéu, nem mesmo Arena ou Beira Rio, agora nem mais o Couto Pereira.

No calor de 27ºC cobre-se com um velho, sujo e esfarrapado cobertor, que diminuem os calafrios da sua febre. Os súditos e fieis torcedores, que no seu delírio vibram e o idolatram, não passam de transeuntes apressados que cortam o paço municipal, sem sequer notar sua presença.

O olhar volta a ser triste e perdido na calçada. Olhos que olham, mas não veem. O presente é cruel, o futuro é incerto. A esperança já morreu.

Havia uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho havia uma pedra, já diria o poeta. Mas antes da pedra também havia uma fratura. Fratura no tornozelo que deu fim ao sonho do menino pobre de Uruguaiana/RS de ser o camisa 10 da seleção.

Na sequência a trinca chacal: depressão, alcoolismo e crack, a pedra que havia no meio do caminho.

Ex-jogador do Coritiba, Isaque de Oliveira, 31 anos, teve sua curta carreira futebolística encerrada de forma dolorosa, uma dividida e o tornozelo fraturado levaram o garoto, com então 21 anos, ao que ele imaginava ser o fundo do poço.

Infelizmente era apenas o começo, a imersão em um mundo que se revelaria ainda mais dramático. Dois anos em depressão, o vício em bebidas alcoólicas e o uso de crack, combinação que ele chama de Diabo.

A nóia, a discussão e um momento de desatino, tão rápido quanto o carrinho que estraçalhou o tornozelo, a bala que entra rasgando a carne, dilacerando órgãos, espalhando sangue e um corpo estendido ao chão. O tempo não volta e o mal não se repara.

Isaque não sabe, mas não deu fim apenas em uma vida, tornou-se seu próprio algoz, o uniforme agora é de presidiário, o mundo da bola ficou pra trás. Os sonhos foram destroçados, o negro de olhar sisudo, sorriso amarelo relata com a voz visivelmente embargada que “até tu perceber que não é tu que levas a droga e sim ela que te leva, tu já perdeu tudo, amigos, família, dignidade e a vida”.

Três anos de cadeia, ou como ele chama: de inferno. Vem então o semiaberto e o futuro de um alcoólatra, viciado na maldita pedra e fichado na polícia pelo artigo 121, é incerto. Isaque, comenta com o colega de escadarias e calçadas Carlos Alberto Rocha da Silva, nome dado em homenagem ao capitão do tri, em 70 no México, 44 anos, 26 deles vagando pelas ruas. “Arrumar emprego, é impossível, quando tu fala que mora na rua”. O colega concorda.

As pessoas ajudam, doam roupas, alimentos. “Todo dia vem um pessoal aqui na prefeitura e lá no viaduto Otávio Rocha, trazem comida, meio dia é sempre sopa, lá no centro espírita”, comenta Isaque, pousando seu olhar triste sobre o companheiro de rua, esperando o complemento do colega. Carlos acena com a cabeça, confirmando e solicita: “Anota aí, a casinha de inverno – referindo-se ao Albergue Municipal Monsenhor Felipe Diel – é conhecida pelos moradores de rua como casinha do inferno, todo dia na fila tem um quebrado ou esfaqueado, só tem nóia eles vem e te furam . E, lá é isso, ou é a tua vida, ou a dele. Eles tão nem aí, vem e metem a faca mesmo. Por isso a rua é melhor, tem o medo da violência, da polícia que chega descendo o cacete. Mas ainda é mais seguro que o albergue, aliás a cadeia é melhor que albergue”. Isaque com dificuldade de falar, apenas acena com a cabeça e solta um “verdade”, quase que inaudível.

Quando ia começar um novo relato, para repentinamente. Vira o rosto e com um olhar ordinário acompanha o andar de uma bela jovem, loira, com cerca de 20 anos, um minúsculo short, generoso decote e, em um raro momento, nota-se Isaque sorrindo. Ainda que seja um riso para não chorar, ele comenta: “Esse também é um momento de dificuldade na rua”. Afinal, é remota a chance de que os olhos da bonita menina o encarem com desejo, amor ou carinho, aliás, que sequer o encararam. Ela cruzou, Isaque permaneceu invisível a ela. Dela e de outros tantos.

Sobre Isaque pesam mais duas tentativas de homicídios, entre idas e vindas, sua vida se alterna entre as celas superlotadas, como a do presídio de Charqueadas, de onde saiu há 4 dias, e o frio e duro chão de viadutos e calçadas, o infernal albergue ou a escadaria da prefeitura, onde o olhar perdido de Isaque parece não esperar nada além de que seus dias tenham um fim.

O menino negro, pobre e sonhador, hoje é um foragido da polícia e da família, de quem foge, encorajado pelo peso da vergonha de ser um viciado e a estigma de ser um assassino.

Sem teto, sem sonhos, sem presente, sem futuro. Ironicamente nasceu em 1983, quando seu time do coração foi campeão mundial de futebol, no dia 1º de janeiro, dia da confraternização mundial.

E tudo que este escritor gostaria de escrever era uma pequena nota em um jornal esportivo ou revistas de fofocas:

Após o jogo, onde na final fez um hat-trick, sagrou-se campeão e artilheiro. Isaque – o maestro, rodou sobre os calcanhares, despistou a imprensa, saiu com sua Lamborghini pelos fundos do hotel onde a delegação comemorava o título e foi com a namorada loira, com cerca de 20 anos, um minúsculo short e generoso decote, brindar com uma Moet & Chandon Dom Perignon Charles & Diana 1961 em uma suíte do Plaza Athenée.

A vida real nem sempre tem um final feliz.