Moisés Machado

Foto: Giovanna Kops / RDCTV

NOTIFICAÇÃO

Abriu um carmenére, chileno, 2015, esparziu o rubro na taça e na garganta. Acendeu um cigarro.

No breu as luzes da rua alumiavam o corpo esquálido à janela do apartamento desprovido de pertences e companhia. Um gole, uma tragada no tabaco, no escuro cintila a chispa acesa da tela do aparelho celular.

Era ela que, em um tempo daqueles que a memória já quase não alcança, foi sua loucura. A causa de sua traição e por quem perdeu a dignidade. Depois de tanto tempo, ela ainda era sua notificação preferida. Curiosamente, o comunicado não começava com “Jorge, por favor, pare, não me procure mais”.  Aliás, depois de tanto tempo pensara já ter sido bloqueado. Se fora, já não o era mais. Ela voltara, das profundezas do inferno, onde metera-se quando fugiu com seu melhor amigo.

Ele a buscara por noites e mais noites, dias e outros dias. Ela mudara-se, trocara de emprego. Ele, que já não tinha a mais digna das vidas humanas, tornara-se um solitário farrapo humano.

– Por que ela voltara? Por que aquele “oi”? Oi, apenas oi, oi e mais nada. Vejam só, depois de tanto tempo um “Oi sumido”, mas não era ele que sumira.

O coração na boca quase o afogara impedindo o próximo gole do tinto recém aberto, servira mais uma taça e acendera outro cigarro, pensa o pobre diabo: por que ela voltou? Por que esse oi? Não sabe o que responder.

Pensa em escrever. Mas ela o verá digitando… desiste e resolve pensar no que responder.

A luz da rua reluz a tela trincada que reflete num olhar estilhaçado. Olha fixamente o aparelho, passa a mão no cabelo, respiração ofegante. Enche a taça, em uma golada a seca, acende mais um cigarro. Desbloqueia, começa a digitar, apaga, joga-o sobre a cama, vira para janela e cospe a fumaça aos ares da metrópole iluminada e dormente ao silêncio da madrugada, ao longe apenas vê e ouve o som que se propaga de alguns borrachos em algazarra. Põe-se a pensar em quantas vezes fora ele a acordar as madrugadas por ela que agora voltara do limbo para perturbar a prova daquele chileno comprado com tanto martírio, entre todos os prazeres perdidos, a bebida de Bacco era a única que restara e por ela muitas vezes trocara o jantar. Por que voltara ela para destruir seu ritual sagrado de vinhos, tangos e cigarros?

– Por que volta, essa diaba? – questionava-se.

Pegou novamente o celular, desbloqueou, lá estava ela, com aquela cara deslavada dando “oi”, aquela cara de puta e de anjo, aquela boca que ele já nem mais lembrara que mordia a sua com lascívia, que passava aquela língua entre seus lábios e a gengiva e sorria, que com aquela maldita boca sugava sua língua e não apenas a língua, ao lembrar-se disso, sorriu, enfim, já não mais lembrava disso tudo. Vibra o celular, ela de novo: “Jorginho, não acredito que não vais falar comigo”. Jorginho, pensara ele, Jorginho é golpe baixo, apenas ela chamava-o assim, lembra das tantas e tantas vezes que quando queria algo chamara-o assim. E, das vezes que gritara: “Jorginho, seu ordinário, fode tua puta”.

Puta, puta sim, vagabunda que fugira com o Augusto, seu amigo de infância. Lembra disso tudo e começa a digitar como um louco, digita tudo aquilo que esteve trancando no peito, põe a boca na ponta dos dedos e grita. Xingando diz quanto achava ela uma puta pilantra que o trocara por um diabo qualquer, escreveu, mas não teve coragem de enviar, deletou. Jogou o celular na cama, sem saber o que fazer, já bebia na garrafa e acendia um cigarro no outro.

Mais um cigarro e mais um trago, digitou: ”Nunca te esqueci, que bom lembrastes desse pobre diabo que sempre te amou e nunca te esqueceu” –  enviou.

Apenas um traço ficou, ela não lera, nem recebera.

Um trago, outro cigarro e o maldito traço continuava lá, solitário, tão eremítico como ele naquele maldito apartamento desde que ela se foi.

Outro trago, mais um crivo, ébrio não notara que sumira da tela espatifada aquele rosto de puta e anjo, julietesco e capitunesco. Sumiram os olhos verdes, a boca carnuda, dando lugar a um avatar cinzento como seus sentimentos. Fora bloqueado. Percebeu.

Uma lágrima escorreu pelo rosto envelhecido, desaguando na barba grisalha. Uma rajada de vento bruscamente entrou pela janela esparramando aquela lágrima que teimava em descer. Em um movimento rude, ele a secou. Buscou outro cigarro, não encontrou, amassou a carteira vazia e jogou junto a garrafa de carmenére, que também jazia ao canto da sala.

Olhou a janela, aproximou-se, lá embaixo os mesmos bêbados continuavam o banzé. Uma senhora fumava um cigarro na janela. Em outra janela o vulto de uma tórrida noite de amor. Voltou os olhos ao apartamento vadio. Ébrio do desamor, solitário embarcou no elevador, ao cruzar na portaria com a voz pastosa que carregam os bêbados gritou ao porteiro:

– Valdir, hoje farei valer os livros que li.

Deixando o porteiro, que apenas sorria e acenava com a cabeça, sem nada entender.

E assim, naquela noite, embriagado de Bukowski e Neruda, ganhou na lábia as piores putas do mais baixo meretrício e esqueceu por mais uma noite a maldita Carolina.