Moisés Machado     

Foto: Giovanna Kops / RDCTV

PARA TODO ATUAL EXISTE UM EX

Derrama uma dose no copo, acende um cigarro, tira a camisa e joga-a sobre a cama buscando fugir do calor intenso daquele começo de primavera. Recostado sobre o parapeito da janela, espia na calçada a metrópole estranhamente vazia daquele feriado. Entre goles de rum e cerveja, Zé Neto e Cristiano derramam toda a sofrência de seu descorno no Spotfiy, maços e mais maços de cigarros. Olha o celular minuto a minuto e encontra alento na vizinha ao lado com Marília Mendonça no talo.

Resolveu sair com as amigas. De long neck em long neck fixou um olhar que a devorava. Aquela coisa cafagestil, meio cigana, que no fundo ela sabia que não valia nada. O álcool só aflora tudo aquilo que o inconsciente clama, dizem. Meia hora depois, tem a pele dele debaixo das unhas vermelhas. Ri, morde e é mordida nos lábios, sente a mão na nuca e respira ofegante. Ele mordisca aquele mamilo rosado como se na vida fosse sua última refeição. Ela sente a mão marcando milímetro a milímetro a pele branca a cada pegada, a cada tapa mais forte. E regozija a cada urro desafinado e suspiro ofegante.

Recostado a janela que dá vazão a única fonte de iluminação daquele início de madrugada no seu covil. Acende um cigarro, serve mais uma dose e espera que ela resolva mandar um “oi sumido”, como nos velhos tempos. Quem sabe, na mais ilusória das suas alucinações, um “estou com saudades”.

Sumida na barba daquele latino, passa a língua na pele suada daquele corpo moreno como uma criança lambe um sorvete no parquinho. E aquelas mãos de estivador a seguram como um garimpeiro aperta na mão uma pepita de ouro recém encontrada.

Abre o whatsapp, ela não está online. Bloqueia o aparelho e joga-o sobre a cama. Mais um gole e um cigarro e põe-se a pensar em por que diabos deixou-se levar por aqueles olhos verdes que desvirturiam o caminho de qualquer um. Parecia certeiro, mas, quando quis regressar ao sorriso que iluminava seus dias, não mais achou o caminho de volta.

Urros, unhas penetrando na pele da nádega comprimida, gritos desafinados…

– Eu vou…

– Já?

Já era tarde.

– Preciso ir.

– Ir?

– Sim.

– Sou casado.

– Casado?

– Sim, você não viu a aliança?

– Pe…Pensei que era um anel.

– Quem usa um anel com nome de alguém?

Nem teve tempo de dizer que aliança de casado é na mão esquerda e de perguntar se a esposa se chamava:“you are my shepherd”, ele já estava no elevador.

Os dois dormem tristes.

Ela, sem gozar.

Ele, sem nada além de uma dor de cabeça pra doer por dez.