Moisés Machado

Foto: Giovanna Kops / RDCTV

PARANOIA

Desconfio que minha mulher está me traindo.

Espera, eu não tenho mulher, como vou estar sendo traído?

Sou um homem de 30 anos, que não tem mulher, não foi corno, não separou.

É isso!

Puta que pariu, como eu não pensei nisso antes. É lógico que é por isso. Não há outro motivo, afinal eu sou um pândego, a turma me adora. Claro que é por isso que a turma não me chama mais para beber.

Eu não posso, descabelado e suado como um gordo tendo um infarto, acender um cigarro, com aquele friso em forma de ípsilon na testa evidenciando o ar de preocupado. Afrouxar a gravata, arregaçar e dobrar os punhos da camisa, passar os olhos em todos à mesa, bebericar o whisky, coçar a testa suada e sisudo como um Hamlet sentenciar: aquela puta está me traindo. Aliás, eu nem gravata uso, apenas bebo como um Opala 77.

Todos na roda passaram por isso, todos viveram a desventura de pagar um trago pelo simples direito de falar. No bar, as gargalhadas em sinfonia com o infeliz a soluçar.

O Mário quando descobriu que a mulher o traía com o professor do pilates tentou suicído. Perdeu completamente o respeito da turma. Ao contrário do Pedro que pegou a mulher com o vizinho e matou os dois, ganhou o respeito da turma e 30 anos de cana, anda meio sumido. O corno que mata a infiel lavando a sua honra é um sujeito respeitado na roda.

Só não pode fazer como Jorge, que sabe que é corno, a turma toda sabe e finge que não sabe e ele finge que o pessoal também não sabe, aí não ganha respeito algum e nem dinheiro, dando volta na quadra até o Ricardão ir embora com a gasolina a cinco reais o litro.

O homem desconfiado ganha respeito dos amigos, ou pena. Não sei bem qual dos dois. Ou os dois, sei lá. Mas o homem corno, ou possível corno, ele passa a imagem de homem preocupado, com os filhos, com a família, com sua reputação, com o lar que construiu e até mesmo com a adúltera. Mesmo que tenha dormido com duas putas do baixo meretrício noite passada. Que bata na mulher, nos filhos. Que passe a noite na bebedeira. O corno sempre será o homem de boa índole, bom pai e bom marido, o cidadão de bem que vê seu lar ameaçado por uma impostora e seu amante, dois pecadores. Embora tenha feito por merecer os chifres e seja um machista filho da puta. O homem traído é respeitável. 

E a mulher sempre puta, afinal apenas uma mundana rampeira vai destruir seu lar.

E tudo isso, às vezes, ainda rola uma graninha no bolão. Aliás, da última vez quem levou fui eu. Batata, acertei na mosca que a Marcinha traía o velho Nicolau com aquele professorzinho de literatura. Também, estava na cara, aquele monumento com aquele velho de voz pastosa. Levei, mas quem levou mesmo foi a Telma, que colocou no bolso minha grana.

Porra!

É isso!

Eu preciso casar.

Eu vou casar, quero ver a turma não me chamar pro bar agora. Vou ligar para a Telma, a vesga. Uma daquelas putas que eu pago para foder e que levou a porra da grana do último bolão.

Vou pedir ela em casamento, por telefone mesmo. Aquela pobre diaba certamente vai aceitar, mais certamente ainda, que vai me trair, porque é puta, putas traem. Então vou dar um tiro na boca daquela puta da Telma quando esse dia chegar. Mas antes desse dia vou tomar alguns porres homéricos me queixando da minha desconfiança.

Preciso comprar uma arma.

E uma gravata.

Presídio Central – Porto Alegre – verão 2025