Moisés Machado

Foto: Giovanna Kops / RDCTV

RONDA

Rondava os bares, as zonas do mais baixo meretrício e, por fim, a sarjeta.

Vagava madrugadas entres as sombras e os desaguadouros. Alto e espadaúdo, não era de fácil queda. Certa vez, chegou a não ser páreo para cinco brigadianos. Alcoolizado, porém, tinha sua força diminuta e perdera as contas de quantas vezes fora espancado. Na penúria terminou várias e várias noites. Sóbrio, era apolíneo no porte. Ébrio, um simples trapo humano da mais alta vagabundagem.

Quando na noite jazia o silêncio, de bodega em bodega, as mais baixas e de pior índole, conduzia sua caçada. Tal qual um capitão do mato em busca do negro fujão, buscava algo que ninguém sabia, que ele guardava no íntimo daqueles olhos verdes que nunca perderam a esperança da sorte outra vez lhe sorrir. Entrava, espiava o local, pedia um trago, as vezes dois, de um só gole bebia e saia, dez ou quinze minutos depois. Rodava sobre os calcanhares e saía porta a fora.

Em outro boteco a cena se repetia, mais um ou dois. Bebia, saia. Invariavelmente, terminava arrumando confusão lá pelas quatro ou cinco da manhã. No sol quente, um pobre cachorro lambia-lhe o sangue seco dos rasgos em sua boca. Aos tombos levantava-se e seguia rumo ao seu barraco, onde a miséria era a mais bela e deprimente imperatriz.

Um fogão velho imundo, que há muito a chama não ardia. Um colchão velho e rasgado sem cama. Roupas suja e surradas. Uma geladeira estragada que ele transformara em uma bela adega de garrafas vazias de bebidas ordinárias. Isso era tudo que o pobre diabo carregava como patrimônio. A fechadura escangalhada permitiria o mesmo cachorro, que lambia-lhe a boca horas atrás e o seguira, a amontoar-se a seus pés. Por fim, o velho cachorro, tornara-se seu companheiro dessa busca desenfreada. Talvez, de todos, o único amigo que lhe restara.

Com olhar fraterno, o canino negro como a alma de seu comparsa, parecia dizer-lhe: desista, meu caro amigo, dessa busca inútil. Mas, se nem mesmo seus irmãos e sua adorada mãe fizeram-no desistir, não seria o fiel parceiro que o faria renunciar.

Quando acendem-se as luzes dos cabarés, ele novamente dá vazão ao seu ritual sagrado de penúria e insanidade.

Outra madrugada, mais uma de tantas que perdera a conta, desde aquele dia.

Depois de um dia amarrotado no calor infernal de seu barraco, tomava um banho gelado. Não por opção, mas por ausência de energia elétrica e pela água deveria agradecer ao piedoso seu Zé, que não apenas aceitava, com algum dó, os vários meses de aluguel atrasado como também mantinha o abastecimento do líquido que matara a sede das memoráveis ressacas.

Nem um lago guaíba inteiro lavaria sua ressaca moral.

Paletó amarfanhado, cigarros paraguaios, sapato de solas e os bicos mais pareciam a biqueira do papagaio do seu Zé. No bolso, o relógio que fora de seu estimado pai. Venderia para pagar seus tragos, pecados e vícios daquela noite.

No lusco fusco da noite, seguia sua caminhada. Alguns metros atrás, como que a vigiar seus passos, o velho “pierro”.

Um bar. Outro. E mais um.

Assim se foram muitas noites em sua diligência e longos dias a recuperar-se.

Em uma dessas noites, por sorte, ou azar, ou até por pena divina, querendo por fim àquela agonia, encontrou-lhe. Vários tragos após o nascer da lua. A alma flamejando, as mãos trêmulas, a lágrima escorrendo na barba grisalha, longa e desalinhada, o peito em chama. O nó em sua garganta só não era maior que o da corda com a qual tentara enforcar-se seis meses antes, sendo salvo pelo seu Zé.

Um filme cruzou diante de seus olhos. Os beijos que trocaram, o corpo que esteve em sua boca. Os jantares regados aos melhores cabernet’s e que invariavelmente terminavam nas melhores suítes da cidade.

Viu-a sorrindo. Da mesma forma que em seus braços, anos atrás.

Respiração ofegante. Passou a mãos nos cabelos, alinhou os trapos encardidos que vestia, comprou uma rosa vermelha da moça que passava oferecendo flores aos casais. Segurou aquela delicada flor como se carregasse o mais valioso diamante já encontrado. Desajeitado, enxugou aquela lágrima que insistia em correr.

Mirou-a entre olhares estranhos. Passos largos e apressados. Correu ao seu encontro, com a alma querendo sair-lhe pela boca. Ela, que até então não o enxergara, quando o viu, parecia não crer no que via. Ele sorriu.

E cravou-lhe entre os seios o punhal. Jogou-lhe no peito a rosa que consumira os últimos trocados do relógio de seu pai.

A manchete do jornal da segunda feira trazia na capa:

“Crime de sangue em um bar na avenida São João”.