1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram
Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil.

Em 2008, o livro 1808 recebeu o prêmio de melhor Livro de Ensaio da Academia Brasileira de Letras e o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria de livro-reportagem e de livro do ano de não-ficção. A obra é a síntese da formação social do brasileiro a partir da vinda da corte portuguesa, que fugia de Napoleão, para o Brasil. Em 7 de Março de 1808 a corte chegou na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Os brasileiros, que esperavam ansiosamente pela corte, ficaram decepcionados ao vê-los em uma situação precária: D. João era um homem muito gordo e se cansava rapidamente, o príncipe era medroso, Carlota Joaquina era uma mulher feia e a Rainha Maria I era louca. Entre os tripulantes estavam pessoas da nobreza, conselheiros reais e militares, juízes, advogados, comerciantes e suas famílias. Também viajavam médicos, bispos, padres, damas-de-companhia, camareiros, pagens, cozinheiros e cavalariços. Tudo isso te lembra algo?

Sim, foi nessa base que o Brasil foi construído, com características que perduram até hoje. 1808 te faz entender melhor o jeitinho brasileiro, a corrupção, o inchaço da máquina pública, entre outras questões que carregamos desde o Brasil Colônia.

Aliás, o próprio autor fala sobre isso em entrevista:

“Há um discurso cínico no debate político de hoje que é usar esse histórico como desculpa para roubalheira. Todo mundo roubou até hoje, porque eu não posso roubar? Isso é inaceitável. Agora, que a corrupção é histórica e endêmica é verdade. Quando a corte chegou ao Brasil, o toma-lá-dá-cá e a promiscuidade com a elite brasileira — composta pelos usineiros, senhores de engenho, mineradores de ouro e diamante, fazendeiros de café e traficantes de escravos — eram uma coisa escandalosa. Para você ter uma ideia, no dia em que chegou ao Rio de Janeiro, Dom João ganhou de presente de um grande traficante de escravos, chamado Elias Antônio Lopes, a melhor casa da cidade — o palácio da Quinta da Boa Vista. Por que essa pessoa deu de presente ao rei? Um palácio em troca de quê? Título de nobreza e privilégios em negócios públicos”.

Uma dica extra é 1822 e 1889, do mesmo autor e que pelos nomes você já pode imaginar a temática e que nos fazem compreender melhor nosso presente. Afinal, um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la, já diria Edmund Burke.

Texto: Moisés Machado