Quem beija na boca e faz festa entre confetes e serpentinas nos bloquinhos ou no Porto Seco da capital gaúcha não imagina que o carnaval de Porto Alegre que conhecemos hoje muito se difere do que um dia foi. Pode não parecer, pela falta de investimento e interesse público, mas é um costume gaúcho histórico.

Afinal em terra de bombachas ninguém faz samba só porque prefere.

Introitu – do latim, introdução ou entrada

Jean-Baptiste Debret (1768-1848) retratou a prática do Entrudo durante sua estadia no Brasil através da gravura acima.

O início desse tipo de manifestação cultural em terras gaúchas, assim como no resto do país, tomou forma com o Entrudo. A brincadeira carnavalesca foi trazida ao Brasil pelos colonizadores portugueses no século XVI. Em Porto Alegre os imigrantes açorianos deram início a brincadeira. O Entrudo consistia basicamente em atirar água uns nos outros, utilizando-se jarras, vasilhas, seringas, bisnagas. Além disso, em uma produção que começava dois meses do carnaval, utilizavam-se limas, laranjas ou limões de cheiro – pequenos objetos com a forma e o tamanho de uma laranja, feitos de cera fina, contendo produtos perfumados que eram usadas também nas “guerras carnavalescas” do Entrudo.

Durante as primeiras décadas do século XIX tudo ocorreu sem maiores problemas.  Com o passar dos anos, a brincadeira se tornou violenta, causando ferimentos e desavenças entre os foliões que substituíram a sadia brincadeira com água de cheiro por materiais pouco recomendáveis como lama, frutas podres e até fezes e urina. Com o aumento da selvageria e da violência, o Entrudo entrou no alvo das autoridades e passou a ser visto com maus olhos por parte da sociedade. 

O historiador Athos Damascenos conta que a primeira proibição dos jogos foi em 1837, pelo Conselho Geral do Município, na proibição estava prevista a multa de dois a doze mil réis ou de dois a oito dias de cadeia, agravando-se em caso de escravos.

Decreto do Conselho Geral do Município de Porto Alegre proibindo o Entrudo em 1837.

Apesar desta e de outras muitas proibições, que também não foram cumpridas e da campanha da imprensa condenando a prática, o Entrudo só não ocorre em 1856 graças a uma epidemia de cólera que assola a cidade. No ano seguinte, porém, voltou com tudo e foi praticado até o início do século XX.

O retorno dos Entrudo nos idos de 1870 causou muita polêmica entre a imprensa como nos conta a doutora em História, Caroline Leal:

“Porto Alegre, naquela época, contava com uma população de 43.998. Estima-se que eram 3.927 habitantes no início daquele século. Com isso, a prática do jogo poderia trazer alguns problemas da ordem do convívio social: nem todo mundo ficava contente em sair às ruas e, repentinamente, levar um balde d’água na cabeça, por exemplo”. 

Além disso, as recentes epidemias que a cidade havia enfrentado, como de cólera e febre escarlatina, causavam temor entre os moradores da capital. No entanto, havia questões mais sérias por trás disso, como as disputas políticas. Leal relata também que o Entrudo passa a ter uma associação com o Império, enquanto as sociedades carnavalescas são ligadas à República. 

O sexismo foi outro forte fator para o fim do Entrudo. “O protagonismo das mulheres nas brincadeiras de entrudo e a maior liberdade sexual que a brincadeira proporcionava. A criação das sociedades carnavalescas Esmeralda e Venezianos era tida como uma prática mais civilizada de entrar na folia e teve como objetivo eliminar o entrudo e readequar os lugares das “boas moças de família” no carnaval. Sua função seria agora assistir aos desfiles e jogar flores aos jovens esmeraldinos e venezianos que promoviam o carnaval”, afirma a historiadora. 

Os próprios Venezianos em seus puffs (versos distribuídos durante os desfiles) no carnaval de 1875, pediam: “castas donzelas desta terra ingente, […] dai hoje aos filhos da Veneza ardente, flores, sorrisos… e um olhar de amor”, conforme apontava a edição do jornal A Reforma de 11 de fevereiro de 1875.

 

Viva o Carnaval, fino, chique e educado

O grito de guerra definia o espírito da Sociedade Esmeralda em relação ao festejo. O Carnaval nascido nas senzalas que a época era o que havia de mais reles, agora adentra como um Morfeu nos salões da elite. O ano é 1873. Surgem as duas grandes sociedades carnavalescas de Porto Alegre: Esmeralda e Venezianos.

Fonte: Revista do Globo

As duas agremiações tinham como proposta a transformação dos festejos na capital gaúcha através de desfiles de carros alegóricos e bailes fechados para seus sócios. Aos moldes de Nice e Veneza, consideradas o ideal de sociedade moderna e civilizada, almejavam uma festa mais sofisticada. Na trilhas de Esmeralda e Venezianos, outras sociedades menos elitizadas: Os Congos, que angariavam fundos no carnaval para alforriar os escravos; Floresta Aurora, que reunia a população negra; Os Menestréis e Os Musterreitz, que concentravam a classe média da época; e a Germânia, esta luxuosíssima, composta, como o nome sugere, por imigrantes alemães e teutos.

Por fim, os corsos carnavalescos das grandes sociedades que carregavam a elite da provinciana capital tiveram curto apogeu e não sobreviveriam às primeiras décadas do século XX. Entre flores, confetes e serpentinas a Esmeralda foi a última a tombar. Além das sociedades, os blocos também foram presença forte no período. Nesta época foram fundados Estrela D’Alva, Os Caraduras, Os Vagalumes, Roxa Saudade, Os Boêmios, entre outros. 

Na virada do século o carnaval porto alegrense é o retrato de seus estratos sociais evidenciados pelo crescimento da cidade. Odiado e reprimido pela polícia, amor e frenesi por parte dos foliões, o Entrudo ainda é a vedete do carnaval de virada de século. Em paralelo, os blocos marcados pela cadência do Zé Pereira.

Ritmo que marcou época no Carnaval brasileiro.

Primeira metade do Século XX : o carnaval volta aos braços do povo

“Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu. Pois hoje o seu nome mudou e estranhos caminhos pisou. Só eu sei que tentando a subida desceu. E agora daria um milhão para ser outra vez Carnaval”. 

Fonte: Museu Porto Alegre Joaquim Felizardo

Na virada do século, um ciclo parece ter se cumprido. Depois de desfilar com fascínio e pompa nos refinados salões da burguesia, é na Cidade Baixa que o Carnaval retorna aos braços do seu primeiro amor: o povo. 

Mas, claro, malandro que é malandro não tem apenas um amor. O Carnaval se dividia entre a celebração da burguesia, dentro dos bailes, e do povo, comemorado em blocos de rua pela Cidade Baixa, 4º distrito, Centro Histórico e Ilhota. Em 1912 há registros de mais de 30 mil foliões brincando o carnaval apenas no centro histórico.

Durante o início da década de 1910, ainda que de forma tímida, também ocorreram os chamados desfiles de Corso. As sociedades utilizavam carros, geralmente de luxo, abertos e ornamentados, pelas ruas de sua cidade. Com foliões geralmente fantasiados, que jogavam confetes, serpentinas e esguichos de lança-perfume nos ocupantes dos outros veículos. 

As grandes sociedades carnavalescas passam a ser substituídas por um enorme contingente de cordões nos anos 20 e, a partir da segunda metade da década, a folia passa a ser centralizada pelas classes menos abastadas. 

Na década de trinta é que o carnaval renasce no saracoteado dos quadris e pés de negros e mulatos, vindos de bairros e vilas mais populares como o Areal da Baronesa, região localizada a beira do rio Guaíba, uma praia que posteriormente foi aterrada e onde hoje é a Praça Conego Marcelino e que tem esse nome por antigamente pertencer a Baronesa de Gravataí.

Vicente Rao. Fonte: Museu Porto Alegre Joaquim Felizardo.

O Areal desde os seus primórdios foi um reduto carnavalesco, nele surgiram nomes como ”Ases do Samba”, ”Nós os Comandos”, ”Seresteiros do Luar”, ”Nós os Democratas”, ”Viemos de Madureira”, ”Os Caetés” e ”Tô com a vela”. Este último, liderado pelo célebre Rei Momo Vicente Rao, a alegria do povo, que reinou de 1950 a 1972 a frente de blocos como Tira o dedo do pudim  e To com a Vela. Blocos de humor no qual os homens se “travestiam”. Os blocos com essa característica foram extintos em 1970, durante o regime militar. 

Também é no Areal a origem da escola Imperadores do Samba, escola que ao lado da Bambas da Orgia é a maior detentora de títulos do Carnaval de Porto Alegre, com 20 campeonatos. O Rei Negro Seu Lelé, primeiro Rei Momo Negro da cidade também é cria do Areal.

Primeiro Rei Momo Negro, Seu Lelé.

 

Outro região importante para o Carnaval de Porto Alegre foi a Colônia Africana, onde negros libertos fixaram residências após a abolição da escravatura. A vila brindou o carnaval gaúcho com o ”Aí Vem a Marinha”, ”Prediletos”, ”Embaixadores”, ”Namorados da Lua”, entre outros. Hoje o local histórico para o samba e, mais que isso, para a cultura negra da capital tem perdido sua negritude pela exploração imobiliária. Ao longo das décadas se subdividiu em bairros como Rio Branco, Bela Vista e Mont´Serrat.

De 1943 a 1945, os desfiles foram suspensos em decorrência da segunda guerra mundial. Em 1946, o “Carnaval da Vitória” simbolizou a retomada da folia do carnaval gaúcho e nesse ano os Aratimbós foram os campeões. 

É também na década de 40 que a agremiação carnavalesca mais antiga ainda em atividade no carnaval da capital, Bambas da Orgia dá o ar da graça, fundada em 6 de maio de 1940, por um grupo de ex-integrantes dos Turunas da Rua Santana. A Escola de Samba do bairro Floresta tem por madrinha a igualmente azul e branca Portela, do Rio de Janeiro. Para que se tenha uma ideia, a Beija-Flor, terceira maior vencedora do carnaval carioca, é quase nove anos mais jovem que a Bambas.

Na década de 1950 diversas outras escolas agremiações também foram surgindo, como Trevo de Ouro, Fidalgos e Aristocratas, Imperadores do Samba.

A Academia de Samba Praiana é um marco para o Carnaval porto-alegrense e responsável como o vemos hoje. Fundada em 10 de março de 1960, a escola transformou os padrões dos desfiles de Porto Alegre. Com alas, mestre sala e porta bandeira, alegorias, tudo como manda o manual das escolas do Rio.

Em 1961 com o enredo “A coroação de D. Pedro II” o carnaval local seguia o modelo dos desfiles do Rio de Janeiro. Além do título do ano, o choque foi tão grande que a Praiana foi declarada “Hors Concours” para o desfile do ano seguinte, sendo a única na história.

Nos anos seguintes as escolas cresceram e o carnaval da cidade passou a ser dominado por elas. Trevo de Ouro, Fidalgos e Aristocratas, Acadêmicos da Orgia, Estado Maior da Restinga, Imperatriz Dona Leopoldina, Império da Zona Norte e a própria Praiana foram campeãs nos anos seguintes. Porém o domínio ficou mesmo entre Bambas da Orgia e Imperadores do Samba, que se tornaram os luminares dessa metamorfose criando uma disputa quase que particular entre as duas, criando uma rivalidade entre azuis e vermelhos também no samba. Juntas, Bambas e Imperadores detém 40 títulos do Carnaval de Porto Alegre, 20 cada, sendo que em 1998 e 2004 dividiram o primeiro lugar.

Complexo Cultural do Porto Seco

Missão: um novo local para a maior festa popular dos gaúchos. Depois de peregrinar por Avenida Borges de Medeiros, João Pessoa, Perimetral e rua Augusto de Carvalho era necessário encontrar uma nova casa para os desfiles carnavalescos já que apenas os blocos, entre idas e vindas, resistem onde estão fincadas as suas raízes.

Os carnavalescos reivindicaram um local no bairro Menino Deus, mas os moradores do bairro, contrários à construção do sambódromo, logo se organizaram para impedir que o projeto tomasse forma. Ao fim do ano de 2003, entre um local na Zona Norte e outro na Zona Sul, a prefeitura optou pela construção do sambódromo na primeira. Mais uma vez na história a cultura popular seria empurrada para a periferia da cidade,  longe do centro. 

Desta forma, surgia em 2004 um improvisado Complexo Cultural do Porto Seco, sem arquibancadas definitivas e com meia dúzia de barracões. A respostas dos deuses do Carnaval foi na mesma proporção: um estranho empate entre Bambas e Imperadores. Dezesseis anos depois a estrutura ainda não foi concluída. As arquibancadas ainda são estruturas móveis e improvisadas. Com recursos escassos do poder público, muito provavelmente os 15 barracões sejam o único fato positivo da inglória batalha.

Vista de satélite do Complexo Cultural Porto Seco.

O povo, os amantes do “carna vale”, e os estudiosos apenas pedem: “não deixem o samba morrer. Não deixem o samba acabar”. O carnaval, afinal, é recomendado como breve ressurreição da vida, sufocada pelo resto do ano. 

Uma invenção do diabo. 

Que Deus abençoou.

Um carnaval gaúcho, tchê

Complexo Cultural do Porto Seco em época de Carnaval.

Há quem diga que o Rio Grande do Sul é um caso à parte, um país dentro de outro país. Com o carnaval não poderia ser diferente, vamos às peculiaridades do carnaval nos pampas:

Tribos Carnavalescas

Em um contexto de busca da nacionalidade, que marcava o Brasil da Era Vargas nos anos de 1930 e 40, foram criadas na periferia de Porto Alegre as tribos carnavalescas. Os temas escolhidos na época eram geralmente relacionados com a questão indígena. Fantasias de bichos, jacarés, leões, araponga, todos da fauna brasileira. Em 19 de abril de 1945, Dia do Índio, surgia a tribo Caetés – campeões seis anos consecutivos do carnaval de Porto Alegre. 

Eram tantas quanto as escolas de samba: ”Arachaneses”, ”Os Aymorés”, ”Os Bororós”, ”Os Caetés”, ”Os Charruas”, ”Os Navajos”, ”Os Potiguares”, ”Os Tapajós”, ”Os Tapuias”, ”Os Tupinambas”, ”Os Xavantes”, “As Iracemas”, “Os Rojábas”, “Os Guaranis”, “Os Tamoios”, dezessete tribos ao longo da história.

Com a crescente influência do carnaval espetáculo realizado no Rio de Janeiro e a regulamentação, os blocos foram se tornando escolas de samba e as tribos desapareceram, restando hoje apenas duas: ”Os Comanches” e ”Guaianazes”.

Blocos

O humor sempre foi marca registrada do carnaval, inclusive entre os gaúchos. Quem hoje beija na boca ao som de Bloco da Laje e Maria do Bairro nem imagina que nomes bem mais engraçados já fizeram a alegria de foliões. 

”Canela de Zebu”, ”Te Arremanga e Vem”, ”Saímos sem querer”, ”Tira o dedo do pudim” e ”Tô Com a Vela” foram nomes que marcaram época, mas foram perdendo espaço para a cariocarização. Em plena repressão militar, os blocos foram eliminados pela prefeitura no ano de 1970. As críticas fortes relacionadas a políticos da época foram o motivo principal do extermínio dos blocos.

Em 2007, na Rua Sofia Veloso, o bloco Maria do Bairro retomava a tradição dos blocos carnavalescos de rua em Porto Alegre. Treze anos atrás era uma caixa de som e pouco mais de 20 foliões. Em 2020, são 24 blocos desfilando pelas ruas onde um dia a Baronesa de Gravataí circulou.

Bandas

Características no carnaval portoalegrense entre os anos 1970 e 1980 e hoje desaparecidas. DK, Saldanha Mrinho, Medianeira, Por Causas de Quê, Área da Baronesa, JB, Filhos da Candinha, Comigo Ninguém Pode, IAPI, foram alguns dos nomes que figuraram pelo carnaval da capital gaúcha. Há quem diga que foram extintas por virem da “gringa” e não terem origem no carnaval local. Umas desapareceram, outras converteram-se em escolas de samba como a ”União da Vila do IAPI”, ”Os Filhos da Candinha” e ”Areal da Baronesa”.

Muambas

Muito provavelmente característica exclusiva de Porto Alegre, as muambas são ensaios das escolas realizados como uma prévia para o desfile oficial. Nas origens a Muamba também era uma forma de arrecadar dinheiro para o desfile e ocorria em diversos pontos da cidade, geralmente o pavilhão da escola era carregado aberto e os foliões jogavam dinheiro ali.

 

Reportagem: 

Caroline Musskopf

Moisés Machado

Auxílio de pesquisa:

Helena Cattani

Artes:

Gabriela Albino

Agradecimentos:

TVE

Museu Porto Alegre Joaquim Felizardo