Os trabalhadores da Cooperativa de Trabalhadores Autônomos das Vilas de Porto Alegre (Cootravipa) estão tendo dificuldades para seguir as recomendações do Ministério da Saúde no que diz respeito à prevenção contra o novo coronavírus. O quadro todo de cooperados está ativo, nas ruas, sem acesso ao álcool gel ou algum espaço para lavar as mãos corretamente. Um destes trabalhadores preferiu não se identificar mas procurou nossa equipe de reportagem: “Não tenho luvas porque só ganhamos uma, se precisamos de outra, vai ser descontado do nosso salário no final do mês. Sempre tem uma aglomeração enorme no galpão, com toda a equipe”.

Apontando para o carinho que serve para recolher o lixo, um dos trabalhadores conta: “isso é tudo que temos, olha esse carrinho amarrado com sacolas”. O equipamento tinha um dos suportes de apoio quebrado, as vassouras desgastadas e velhas. Questionado se havia sido dado por parte da Cootravipa algum kit de prevenção ao coronavírus, foram enfáticos ao dizer que não. “Nem máscara, nem álcool gel, nada. E a gente está aí, no meio da muvuca do centro de Porto Alegre, andando toda a cidade. E não nos deram nada. Luvas eles dão as normais do dia a dia e se tu precisar de outra tem que pagar. Assim como o uniforme, eles te dão um e o par de botinas. Se rasga e tu precisas de outro, tem que pagar”, diz.

Trabalhadores mostram o equipamento desgastado.

Em tempos de crise na saúde, na economia e na sociedade como um todo, quem realiza a limpeza urbana não têm escala de trabalho para reduzir seus riscos nem condições sanitárias mínimas. Segundo o Ministério da Saúde, cada vez mais são necessárias medidas de proteção e isolamento para evitar o contágio essencialmente daqueles que integram os grupos de risco. Nesse contexto, é utópico pensar em home office como uma realidade para a maior parte dos brasileiros.

Um deles ainda denuncia outra ação que, segundo ele, é realizada pela Cooperativa. “Tu entras lá como associado, aí tu deverias receber participação [de lucros]. Mas faz uns 3 ou 4 anos que isso não acontece. Ano passado disseram que iam comprar material [de trabalho] novo. Mas nem isso, olhas essas vassouras e carrinhos. Eles teriam que dar uma cesta básica de 150 reais e compram a que custa R$ 39,90 lá no Sarandi e embolsam R$ 110 reais”.

A RDC TV procurou Cootravipa e DMLU para apurar as denúncias

A assessoria de imprensa do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), responsável pela administração do contrato da terceirizada, ao ser contatada, pediu mais tempo para que os seus técnicos pudessem averiguar a situação. Afirmou ao final que “todos os prestadores de serviço foram notificados e orientados com relação às medidas decretadas pelo Prefeito para a prevenção do Covid-19”. Ainda segundo o assessor do órgão, “não é possível afirmar que isso está ocorrendo, pois não recebemos nenhuma denuncia formal. [Ainda assim, a] área de fiscalização de contratos está atenta a possíveis não cumprimentos dos decretos, por parte das empresas terceirizadas que prestam serviços ao município de Porto Alegre”. A terceirizada, caso seja comprovada negligente, pode receber notificação e multa da Prefeitura.

Cabe destacar que a Cootravipa e a Prefeitura Municipal de Porto Alegre mantém entre si 16 contratos vigentes que beneficiam a Cootravipa em mais de R$ 20 milhões de reais por ano. Destes, R$ 3.607.079,96 são para serviços de operação das casas de bomba do sistema de proteção contra as cheias do município de Porto Alegre, R$ 2.068.798,32 para serviços de limpeza e conservação das áreas industriais e/ou administrativas do DMAE e outros R$ 10.490.888,16 para coleta de resíduos sólidos.

Tabela de contratos no Portal da Transparência.

A Cootravipa foi procurada por telefone e e-mail, mas até o momento da publicação não obtivemos nenhuma resposta. Caso a instituição queira entrar em contato para eventuais explicações, pode ligar para o número 3119-2135. O mesmo se aplica para o caso de mais trabalhadores que desejarem se manifestar. Denúncias como esta podem ser encaminhadas de forma anônima junto ao DMLU, à prefeitura, pelo número 156, ou pelo aplicativo Eu Faço POA. Além destes órgãos, também foram consultadas a Secretaria de Comunicação de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul.

Abaixo, o e-mail enviado à Cootravipa, além das diversas ligações durante o dia:

E-mail enviado à Cooperativa de Trabalhadores Autônomos das Vilas de Porto Alegre no dia 19 de março de 2020.

 

Reportagem:

Caroline Musskopf e Moisés Machado

Fotos:

Caroline Musskopf